A síndrome do olho seco é uma das condições oftalmológicas mais prevalentes do mundo moderno. Estima-se que afete entre 10% e 30% da população adulta, com prevalência crescente pelo aumento do uso de telas, ar-condicionado e da longevidade. Apesar de frequentemente subestimada, o olho seco pode comprometer significativamente a qualidade de vida, causar dor crônica, reduzir a produtividade e — nos casos graves — levar a danos permanentes na superfície ocular.
O Hospital Oftalmológico de Anápolis (HOA) oferece avaliação especializada da superfície ocular e tratamento individualizado para a síndrome do olho seco, com os recursos diagnósticos e terapêuticos mais modernos disponíveis.
O que é o Filme Lacrimal?
Para entender o olho seco, é preciso conhecer o filme lacrimal. Essa fina camada de lágrima que cobre a superfície do olho é muito mais complexa do que parece. Tem estrutura triláminar:
- Camada lipídica (mais externa): produzida pelas glândulas de Meibomius nas pálpebras; impede a evaporação do filme lacrimal
- Camada aquosa (intermediária): produzida pela glândula lacrimal principal e acessórias; composta principalmente de água, eletrólitos, proteínas e fatores de crescimento
- Camada mucosa (mais interna): produzida pelas células caliciformes da conjuntiva; garante a aderência do filme à superfície do olho
O filme lacrimal cumpre funções essenciais: lubrifica a superfície ocular, fornece oxigênio e nutrientes para a córnea avascular, protege contra microorganismos, remove resíduos e contribui para a qualidade óptica do olho.
Tipos de Olho Seco
Olho Seco por Deficiência Aquosa
Produção insuficiente de lágrima pela glândula lacrimal. Causas incluem síndrome de Sjögren, doenças autoimunes, radioterapia, uso de medicamentos e envelhecimento.
Olho Seco Evaporativo (Mais Comum)
A produção de lágrima é adequada, mas o filme lacrimal evapora muito rapidamente pela deficiência da camada lipídica. A causa mais freqüente é a disfunção das glândulas de Meibomius (DGM), encontrada em até 80% dos casos de olho seco.
Causas e Fatores de Risco
O olho seco é multifatorial. Os principais fatores de risco são:
Estilo de Vida e Ambiente
- Uso prolongado de telas (computador, celular, tablet): reduz a frequência de piscadas de 15–20/min para 5–7/min, aumentando a evaporação do filme lacrimal
- Ar-condicionado e ambientes secos: reduzem a umidade relativa do ar e aumentam a evaporação
- Uso de lentes de contato: interferem no filme lacrimal e aumentam a evaporação
- Exposição ao vento e poluição
Fatores Hormonais e Sistêmicos
- Menopausa: a queda dos estrôgenos reduz a produção lacrimal
- Anticoncepcional oral
- Gravidez
- Síndrome de Sjögren (autoimune)
- Doenças da tireoide
- Diabetes mellitus
Medicamentos
- Anti-histamínicos
- Antidepressivos e ansiolíticos
- Medicamentos para pressão arterial (especialmente betabloqueadores)
- Diuréticos
- Isotretinoína (Roacutan®)
- Quimioterapia
Condições Oculares
- Pós-operatório de LASIK (os nervos corneanos são temporariamente seccionados)
- Blefarite (inflamação das bordas palpebrais)
- Lagoftalmo (pálpebra que não fecha completamente)
- Prótese ocular
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Sintomas do Olho Seco
Os sintomas são variados e frequentemente subestimados como “cansaço visual”:
- Sensação de areia, corpo estranho ou “cisco” no olho
- Ardência ou queimação ocular
- Vermelhidão dos olhos
- Visão embaçada que melhora momentaneamente ao piscar
- Sensibilidade à luz (fotofobia)
- Lacrimejamento excessivo paradoxal (o olho seco estimula a produção reflexa de lágrimas)
- Desconforto ao usar lentes de contato
- Dificuldade para abrir os olhos pela manhã (pálpebras coladas)
- Piora dos sintomas ao final do dia, em ambientes secos, ventilados ou ao usar telas por períodos prolongados
Diagnóstico do Olho Seco
O diagnóstico é clínico e laboratorial. Os principais exames incluem:
- Questionários de sintomas (OSDI, DEQ-5): quantificam a gravidade subjetiva
- Tempo de ruptura do filme lacrimal (TBUT): instila-se fluoresceína e observa-se em quanto tempo aparecem falhas no filme lacrimal — normal é acima de 10 segundos
- Teste de Schirmer: mede o volume de produção lacrimal com uma tira de papel graduado colocada na pálpebra inferior
- Coloração da superf&ície ocular (fluoresceína, rosa bengala, verde de lisamina): revela áreas de dano epitelial
- Avaliação das glândulas de Meibomius: expressão mecânica e meibografia (imagem da infraestrutura das glândulas)
- Osmolaridade lacrimal: exame quantitativo que mede a concentração do filme lacrimal — elevada no olho seco
Tratamento do Olho Seco
O tratamento é sempre individualizado conforme a causa, o tipo e a gravidade:
1. Lágrimas Artificiais
Para casos leves. As formulações sem conservantes são preferíveis para uso frequente. A viscosidade é escolhida conforme o perfil do paciente: soluções aquosas para uso diurno, geis e pomadas para a noite.
2. Higiene Palpebral e Compressão Quente
Fundamental para a disfunção das glândulas de Meibomius. A compressa quente por 5–10 minutos amolece a secreção endurecida; a massagem palpebral e a limpeza das bordas com xampuê de bebê diluído mantém as glândulas funcionantes.
3. Coliríos Anti-inflamatórios
Para casos moderados a graves com componente inflamatório. A ciclosporina (Restasis®, Ikervis®) e o lifitegraste modulam a resposta imunológica na superfície ocular.
4. Oclução do Ponto Lacrimal
Plugues de ponto lacrimal (temporários ou permanentes) são inseridos nos canais de drenagem lacrimal para reter as lágrimas naturais na superfície por mais tempo.
5. Tratamentos para as Glândulas de Meibomius
Dispositivos modernos como o LipiFlow® realizam aquecimento e pulsação nas pálpebras para desobstruir as glândulas. O Intense Pulsed Light (IPL) também demonstrou eficácia na DGM e na blefarite posterior.
6. Soro Autólogo
Colirío preparado a partir do próprio sangue do paciente, rico em fatores de crescimento. Indicado para casos graves e refratários, especialmente após LASIK ou em doenças autoimunes.
Dicas de Prevenção do Olho Seco no Dia a Dia
- Pisque conscientemente durante o uso de telas — adote a regra 20-20-20: a cada 20 minutos, olhe para algo a 20 pés (6m) por 20 segundos
- Mantenha telas abaixo do nível dos olhos (reduz a exposição da superfície ocular)
- Use umidificadores de ambiente em locais com ar-condicionado
- Hidrate-se adequadamente (beba água)
- Consuma alimentos ricos em ômega-3 (peixe, linhaça, chia) — melhoram a qualidade da camada lipídica
- Evite fumar e ambientes com fumantes
- Use óculos de sol que protejam lateralmente em ambientes ventilados
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