Você já notou que seus olhos lacrimejam constantemente, mesmo sem sentir emoção ou estar em um ambiente com vento ou fumacã? Esse sintoma, chamado de epifóra, é o sinal mais característico da obstrução das vias lacrimais — uma condição que ocorre quando o sistema de drenagem das lágrimas está bloqueado ou não funciona corretamente.
A obstrução das vias lacrimais pode afetar tanto adultos quanto bebês e crianças, com causas e tratamentos distintos conforme a faixa etária e a localização e gravidade da obstrução. Neste artigo, explicamos tudo sobre essa condição e como tratamos nossos pacientes no Hospital Oftalmológico de Anápolis.
Como Funciona o Sistema Lacrimal?
As lágrimas são produzidas pela glândula lacrimal principal, localizada na parte superior externa da órbita, e pelas glândulas acessórias distribuídas pelas pálpebras. As lágrimas se espalham pela superfície ocular a cada piscada e são drenadas pelos pontos lacrimais (pequenos oríficios nas bordas internas das pálpebras) para os canáliculos lacrimais, que desembocam no saco lacrimal e, em seguida, no ducto nasolacrimal, que drena as lágrimas para o interior do nariz — por isso o nariz “escorre” quando choramos.
Quando qualquer ponto desse trajeto está obstuído, as lágrimas não conseguem ser drenadas e transbordam pelo canto interno dos olhos — a epifóra.
Causas da Obstrução Lacrimal
Em Bebês e Crianças
A causa mais comum em bebês é a imperforâção da válvula de Hasner, uma membrana que normalmente se rompe naturalmente no final da gestação ou nos primeiros dias de vida. Quando isso não ocorre, o ducto nasolacrimal permanece obstuído. Estima-se que até 6% dos recém-nascidos apresentem essa condição. A boa notícia é que em até 90% dos casos a obstrução se resolve espontaneamente até os 12 meses de vida.
Em Adultos
As causas de obstrução lacrimal em adultos são mais variadas:
- Obstrução primária idiopatica: estreitamento progressivo do ducto nasolacrimal com o envelhecimento, mais comum em mulheres acima dos 50 anos
- Dacriocistite crônica: infecção do saco lacrimal que pode causar obstrução e formar cístos ou abscessos
- Trauma facial: fraturas ou lesões na região nasal ou infraorbitaria podem lesar as vias lacrimais
- Doenças inflamatórias: sarcoidose, granulomatose com poliangiite e outras condições inflamatórias podem obstruir as vias lacrimais
- Tumores: neoplasias nasais, sinusais ou do próprio sistema lacrimal podem comprimir ou invadir o ducto
- Medicamentos: alguns quimioterápicos (especialmente o docetaxel) podem causar fibroses das vias lacrimais
- Pólipos nasais e rinite crônica: que podem comprimir o ducto nasolacrimal em seu desemboque no nariz
Sintomas
O sintoma principal é o lacrimejamento excessivo e persistente, que pode ser constante ou intermitente. Outros sinais incluem:
- Secreção mucopurulenta nos cantos internos dos olhos, especialmente ao acordar
- Vermelhidão e irritação ocular
- Visão embacada pela lágrima que permanece na superfície ocular
- Edema (inchaço) doloroso na região entre o olho e o nariz (dacriocistite aguda)
- Em bebês: olhos grudando ao acordar, “olho choro” constante mesmo sem choro
A dacriocistite aguda — infecção do saco lacrimal com formação de abscesso — é uma urgência médica que requer tratamento com antibióticos sistemiços e, em alguns casos, drenagem cirúrgica imediata.
Diagnóstico
O diagnóstico é realizado pelo oftalmologista especializado em oculoplástica, que pode utilizar:
- Teste de Jones I e II: avalia a drenagem lacrimal com colírio fluorescente
- Sondagem e irrigação lacrimal: confirma a localização e grau da obstrução
- Dacriocistografia: exame de imagem com contraste que mapeia as vias lacrimais
- Dacriocintilografia: exame nuclear que avalia a dinâmica de drenagem lacrimal
- Tomografia computadorizada dos seios da face: especialmente útil quando há suspeita de causa estrutural ou tumoral
Tratamento
Em Bebês
Para bebês com obstrução lacrimal congênita, a conduta inicial é conservadora:
- Massagem lacrimal (manobra de Crigler): pressão suave e rítmica na região do saco lacrimal, feita pelos pais conforme orientação médica, várias vezes ao dia. Aumenta a pressão hidrostática no saco e favorece a abertura da membrana
- Colírios antibióticos: quando há secreção purulenta, podem ser usados para controlar a infecção secundária
- Sondagem lacrimal: indicada quando a obstrução persiste após os 12 meses de idade. Um fino instrumento é inserido pelas vias lacrimais para romper a membrana obstrutiva. É um procedimento rápido, realizado sob anestesia geral em crianças pequenas.
Em Adultos
O tratamento em adultos é principalmente cirúrgico:
- Dacriocistorrinostomia (DCR): a cirurgia cria um novo caminho de drenagem entre o saco lacrimal e o nariz, contornando a obstrução do ducto nasolacrimal. Pode ser realizada por via externa (incisão na pele) ou endoscopíca (por via endonasal, sem incisão externa).
- Dilatacão com sonda ou balonete: pode ser tentada em obstruções parciais, com taxa de sucesso variável.
- Intubação com sonda de silicone (bicanalicular): mantém as vias lacrimais abertas após procedimentos de dilatacão, sendo removida em consulta ambulatorial após 3 a 6 meses.
Prognosóstico
O prognóstico da obstrução lacrimal é excelente quando tratada adequadamente. Em bebês, a grande maioria se resolve espontaneamente ou com sondagem. Em adultos, a DCR tem taxa de sucesso superior a 90% nos centros com experiência na técnica. O tratamento precoce evita complicações como a dacriocistite recorrente, que é desconfortável e pode exigir múltiplos tratamentos.
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Agendar pelo WhatsAppAviso médico: Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educativo, não substituindo a consulta, o diagnóstico ou o tratamento médico. Sempre consulte um oftalmologista qualificado para avaliação individualizada.